quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

D`ALESSANDRO É UMA LENDA



A quinta-feira (04.02) amanheceu cinza com chuva e um vento, algo melancólico. Até os Dois Irmãos (Morros) estavam sombrios e entristecidos. Não havia poesia nem encantamento.
A ficha ainda não caiu. Nosso maior jogador, nosso maior ídolo dos últimos dez anos está deixando o Colorado. Ele faz parte da galeria dos heróis da Academia do Povo e com Tesourinha, Larry, Manga, Claudiomiro, Valdomiro, Falcão, Figueroa, Carpegiani, Yarlei, Clemer, Fernandão, D´Alessandro “El Cabezon” tem seu quadro emoldurado não na parede, mas nos corações da Família Colorada.
Confesso que levei um drible cruel, a quinta-feira me aplicou uma “la boba”. Este dia é muito parecido com fevereiro de 1976, quando o nosso capitão Elias Figueroa anunciou que estava deixando o Colorado e retornado ao Chile (Palestino). Eu um menino de apenas de 12 anos me escondi para chorar. Senti uma angústia terrível, como se estivesse perdendo um familiar e a história se repete, agora aos 52 anos de existência, o sentimento é o mesmo.
Hoje as palavras me faltam, mas sobram saudades.
Homem de caráter e de grandeza ímpar. Pai de família zeloso e apaixonado pela esposa e pelos filhos. Jamais sairás da retina dos colorados, braços cerrados, as veias do pescoço querendo pular para fora e os olhos arregalados correndo em direção a torcida para comemorar mais um gol.
Ah, D´Ale como faz falta jogadores viscerais como você. Atleta abnegado, homem de grupo e de entrega a causa. D´Alessandro era um líder proativo, alguém que transcendia e nos momentos de maiores dificuldades chamava a responsabilidade para si.
Só quem ama chora e choraste na coletiva ao sentir no coração a saudade antecipada e isso não é para qualquer um.
Não comemorava os gols com dancinhas bobas, mas buscava a cumplicidade da torcida, seguindo o rumo das batidas do próprio coração! Eras e serás sempre o nosso ídolo. Ganhou grenais, fez gols em grenais, sabia provocar o eterno adversário ali do bairro Humaitá. Apitava jogos, pegava guris afoitos pelo pescoço como quem diz: “Aqui quem manda sou eu piá. Te aquieta”. Fazia gestos imitando um binóculo. Não mandava dizer, era direto.
Após as conquistas e foram tantas (11 títulos) em sete anos e meio de Beira Rio, corria como louco em direção a torcida pegava um tambor ou um caixão em tom provocativo. E no final do ano ainda nos emocionava com uma partida beneficente; num gesto de grandeza extrema.
A bem da verdade a saída de D´Alessandro deixa o futebol brasileiro mais pobre e triste, afinal e agora quem vai aplicar a “la boba”? Quem vai fazer gols de tudo que é jeito no Vitor (velho freguês)? Perdemos a referência. Perdemos o líder. Perdemos a voz. D`Alessandro vestiu a camisa colorada e a honrou como poucos.
Nós torcedores só temos a agradecer e dizer: Obrigado capitão e até a volta. O Gigante te espera para começar a festa!
* Jair Wingert- jornalista – Campo Bom. RS

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

MUNICIPALIZAR A ÁGUA É O CAMINHO



O calor insuportável que atinge o planeta nos remete a reflexões profundas. Será que dentro de dez anos vamos suportar a temperatura no planeta terra? Acredito que não. Hoje vivemos um problema gravíssimo e que as autoridades não ousam em tocar. Para onde estamos caminhando?
O planeta Campo Bom é um lugar que no verão é quase inabitável, com ondas de calorões que nos deixam atônitos. Esta semana para completar o quadro uma simples tempestade mais uma vez colocou a progressista cidade numa situação que beira o trágico e cômico. O temporal de pequenas proporções causou sérios prejuízos a comunidade com falta de luz e água.
Empresas fechadas, famílias sem luz e sem água. Pessoas acamadas que necessitam de ventilador, ar condicionado, crianças sem água, um caos mais uma vez se abateu num município rico e referência na região. A cada chuva mais forte Campo Bom é vítima da fala de luz e de água. O setor de bombas da Corsan localizado no Recanto (25 de Julho) não possui gerador e a falta de energia elétrica nesta região faz com que a cidade inteira não receba água. Pode isso em pleno século 21?
Após a tempestade de segunda-feira (25.01), por volta das 21 horas não havia luz e nem água em vários pontos de Campo Bom inclusive no centro. O péssimo atendimento do call center tanto da Corsan como da AES Sul é algo revoltante e o pior é que tudo permanece como está, não dá nada. Você liga e uma voz nojenta diz que você é o 118º a ser atendido e uma música mais nojenta é colocada para você aguardar a ser atendido por alguém que pela voz parece não ser deste planeta e ainda por cima é surdo.
É trágico. No planeta Campo Bom o problema é a falta de gerador na estação de tratamento da Corsan, porém o governo do Estado afirma que não tem recursos para a compra do gerador. Isso é cômico ou é trágico? O governo do Estado vai indenizar as empresas que dispensaram seus trabalhadores na terça-feira (26.01)? Por que a AES Sul continua prestando um serviço de péssima qualidade? Onde estão os deputados da região? Onde está a agência reguladora deste serviço? A falta de energia elétrica em Campo Bom é fruto da falta de um projeto estratégico da AES Sul que presta um serviço de quinta categoria ao município e cidades que atende. Cada vez que um urubu senta em um poste em Campo Bom falta luz, porque de cada dez postes, oito estão podres e a AES Sul não faz as trocas e ninguém pune ou fiscaliza. Já a Corsan se esconde atrás da AES Sul, pois é uma empresa incompetente. A equipe da cidade é excelente, mas o problema é de gestão pública, ou seja, o responsável é o governo do Estado e mais uma vez perguntamos: onde estão os nossos deputados eleitos para nos defender?
O caminho é simples, é lógico, a municipalização dos serviços de água e esgoto a exemplo de Novo Hamburgo e outras cidades. Não dá mais para aguentar tamanho descaso e incompetência da Corsan.
A AES Sul é fruto das privatizações do governo Britto que entregou o patrimônio dos gaúchos ao capitalismo e ao novo modelo, o neo liberalismo que veio para “salvar a humanidade” e deixar os ricos mais ricos.
Hoje não temos a quem reclamar. Em Campo Bom não existe um escritório da AES Sul. Estamos num mato sem cachorro. A Corsan por sua vez é fruto das açãoes de um governo que não tem comandante, um contador de piadas que delegou o comando a subalternos que nós aqui já conhecemos e sabemos a prática.
No meu entender urge a necessidade da administração municipal em conjunto com a sociedade organizada romper o contrato com a Corsan que é um empresa incompetente na esfera estadual e municipalizar a água. Convenhamos se não existe recurso para comprar dois ou três geradores, então devemos pedir a conta e subir para Caxias. Este filme se repetirá com as tempestades que enfrentaremos ainda neste verão de 2016. Vamos resistir pacificamente?
Ah quando voltar a água, dentro do vaso vejo a Corsan e a AES Sul boiando e dou descarga... Tchuuuummm... Tchuuuum.
E o pior é que fedeu.
(Jair Wingert; jornalista que está vereador em Campo Bom)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

ANTONIETA: UM ENCANTO DE MENINA!

Antonieta, Antonia ou simplesmente Tonha em vários momentos.
O responsável pelo padrão de jogo da seleção de 1970, João Saldanha foi derrubado pelo ditador Medici que queria escalar Dário no lugar de Tostão, era uma das grandes cabeças pensantes da América Latina, pois o gaúcho João Saldanha amava os gatos e afirmava “Não confio em uma pessoa que não gosta de gatos”. 
Os animais nos encantam e neste mundo conturbado de inversão de valores eles nos oportunizam lições de amor, respeito e fidelidade. Os Wingert sempre tiveram uma excelente relação com os gatos. Os felinos são independentes, leais e carinhosos e esta história de que gato não gosta do dono e sim da casa foi escrita por algum idiota que não entendia nada de gatos. 
De férias da labuta e recarregando as baterias para este ano de 2016 que promete em todos os sentidos, dentre as muitas tarefas outorgada a este escriba que está vereador surge a missão de cuidar por 16 dias da pequena Antonieta (que nós já batizamos de Antonia e já estamos chamando até de Tonha). A Antonieta é conterrânea do ex-governador Tarso Genro, vinda de Santa Maria da Boca do Monte foi um presente da família do Jander, os Martins à Vitória. Espera que eu explico: O Jander é meu genro, casado com minha filha Vitória. 
Muito bem, a Antonieta é uma fofura, toda branquinha, mas extremamente hiperativa, sempre correndo, pulando e procurando algo para morder e brincar. (Será que esta gata não tem que tomar gardenal? Oh, telefone da Manéli “Cala esta boca!) A pequena gatinha tem seis meses de vida mas é um encanto. A cada descoberta é uma festa para desespero de nosso velho gato Koda que com seus 12 anos tem que enfrentar com muita paciência as ações intempestivas da pequena “Tonha” que apenas quer brincar. A vinda da Antonieta para nosso lar serviu para que o Koda pudesse exercitar a paciência e a calma, porque muitas vezes ele sai em retirada estratégica para não bater na pequena arteira. Não sem antes bufar e mostar os dentes afiados ( mas galo velho, quer dizer gato velho). 
Ela vive no centro da cidade (Planeta Campo Bom) com a Vitória e o Jander mas ao chegar no bairro já passamos a chama-la de Antonia ou Tonha pois fica mais proletário, Antonieta é nome de gato de apartamento; de centro, agora a Tonha é vileira pelo menos por 16 dias. Um pássaro voando, uma flor tudo é novidade. Provocar no muro a Chica e o Fred, os cachorros da nossa vizinha é um prato cheio. Ou quando foge pulando a janela da sala e invade a casa da Vera, do Evandro e da Grazi nossos vizinhos. A folgada entra sorrateiramente pela garagem e quando os vizinhos descobrem ela já esta assistindo televisão sentada no sofá. Não raro ao cheirar uma formiga recebe uma mordida na boca e segue em disparada com as orelhas murchas e o rabo enorme em direção ao sofá. A noite tudo pronto, cama da Tonha na sala, luz apagada, portas dos quartos fechadas e quem diz que a branquela se aquieta. Entre miados altíssimos e arranhões na porta, somos obrigados a deixá-la adentrar ao quarto e após algumas investigações, mordidas nos dedões que nós classificamos de “Hora da Sofrência”, o pequeno floquinho de neve se acomoda entre eu e a Lidia e segue a noite ronronando e ao amanhecer, acorda como todo ser humano deveria acordar, feliz, alegre, de bem com a vida. 
Na Inglaterra temos um exemplo clássico da relação de amizade e amor entre um gato e um humano, inclusive até livro virou. Usando um vistoso lenço Union Jack em volta do pescoço e cercado por uma multidão de 30 espectadores de boca aberta, Bob, o gatinho cor de laranja, sorri — é, sorri — timidamente. Próximo a ele, está seu dono James Bowen, com seu violão surrado, cantando músicas do Oasis. Então, ele para de tocar e se abaixa para Bob: “Vamos, Bob, cumprimente!”, diz. Bob mexe os bigodes, levanta uma pata e a estende para James. A multidão assobia. Não é todo dia que se vê um gato sentado, calmamente, no centro de Londres, aparentemente sem se abalar com o barulho das sirenes, os carros passando e todo aquele movimento — mas Bob não é um gato comum... O livro é da editora Saraiva – Um gato de rua chamado Bob. No Brasil também temos o exemplo do Chico que faz o maior sucesso, com blog e agora livro – (Cansei de ser gato- http://www.canseidesergato.com.br) O Chico foi encontrado no interior de São Paulo quando tinha aproximadamente 2 meses. Cheio de pulgas, vermes, um pouco machucado e cansado de ser renegado foi adotado, amado e cresceu. Hoje trabalha, dorme e come. Come muito, podem reparar na pancinha. Adora as fotos, por um carinho no queixo e faz tudo numa boa. Mas voltando a Antonieta, Antonia ou Tonha a presença dela encheu a casa de uma certa magia e encantamento. Andar por cima dos sofás, balcão, mesa do computador e atacar o mouse (realmente gato e rato não se toleram), uma das coisas que a floquinho de neve mais gosta de fazer é morder. Não sei se é inerente a idade gostar de estripulias, ou tem a ver com a dentição que é nova. Os dentinhos são umas agulhas. Em alguns momentos travamos uma luta em estilo samurai. Antonia de quimono branco, patinhas cor de rosa, baixa as orelhas fica em duas patas e ataca como um ninja minha mão. O objetivo sempre é morder. Minha mão vive lanhada dos arranhões e mordidas. Ao conseguir prender a minha mão com as patas dianteiras, ela com as patinhas traseiras faz um movimento como se estivesse pedalando e ai é o que classificamos de momento de sofrência. 
Tudo isso termina neste domingo (24.01), um dia após este escriba e aprendiz da vida ter completado 5.2 (putz já são 52 janeiros!), pois no domingo Jander e Vitória retornam da viagem pelo Mercosul (Argentina, Chile, Peru) e a floquinho de neve vai ser novamente a Antonieta, uma gata de apartamento, mas tenho convicção que ela viveu momentos grandiosos em nosso lar e fez descobertas fantásticas. Por outro lado, a gente aprendeu muito com este animalzinho que com suas lições nos deixou mais humanos e esperançosos, na certeza de que “um outro mundo é possível e necessário”. Um mundo onde as pessoas sejam leais como os animais, sejam de alma branquinha como a Antonieta, o nosso floquinho de neve, um amor de gatinha que nos deu uma grande lição de vida. (Jair Wingert; jornalista.)
O velho Koda exercitou a paciência com a Tonha. A maquina de lavar foi um dos refúgios para fugir da “pentelhação” da branquela agitada.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

OS CAMPINHOS DA VIDA

    Campinhos da vida foram sufocados pela especulação imobiliária em toda região
    1. Os dois melhores não podem estar no mesmo lado. Logo, eles tiram par-impar e escolhem os times.
    2. Ser escolhido por último é uma grande humilhação.
    3. Um time joga sem camisa.
    4. O pior de cada time vira goleiro, a não ser que tenha alguém que goste de Catar.
    5. Se ninguém aceita ser goleiro, adota-se um rodízio: cada um cata até sofrer um gol.
    6. Quando tem um pênalti, sai o goleiro ruim e entra um bom só pra tentar pegar a cobrança.
    7. Os piores de cada lado ficam na zaga. 
    8. O dono da bola joga no mesmo time do melhor jogador.
    9. Não tem juiz.
    10. As faltas são marcadas no grito: se você foi atingido, grite como se tivesse quebrado uma perna e conseguirás a falta.
    11. Se você está no lance e a bola sai pela lateral, grite "nossa" e pegue a bola o mais rápido possível para fazer a cobrança (essa regra também se aplica a "escanteio").
    12. Lesões como destroncar o dedão do pé, ralar o joelho, sangrar o nariz e outras são normais.
    13. Quem chuta a bola pra longe tem que buscar.
    14. Lances polêmicos são resolvidos no grito ou, se for o caso, no tapa.
    15. A partida acaba quando todos estão cansados, quando anoitece, ou quando a mãe do dono da bola manda ele ir pra casa.
    16. Mesmo que esteja 15 x 0, a partida acaba com "quem faz, ganha". 
    17. O gordo vai sempre para o gol.
    18. A regra de número 17 pode ser anulada se o gordo é dono da bola ou se tiver mana bonita ai pode jogar até com a 10.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

ROGÉRIO MARTINS: UMA VIDA QUE VALEU A PENA

O poeta pergunta: “E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão?
Ela é a batida de um coração? Ela é uma doce ilusão? Mas e a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento? Ela é alegria ou lamento? O que é? O que é meu irmão?” 

Já o nosso poeta maior Mário Quintana diz que o duro não é morrer, o duro é deixar de viver! 
Hoje amanheci, meditei e constatei que tenho mais passado que futuro e que a vida parece um cesto cheio de doces que no começo os comia de forma displicente, alguns  até caiam do cesto sem ao menos preocupar-me, porém os anos se passaram e agora que vejo o cesto esvaziando, os saboreio como um faminto ou tal qual alguém perdido no Saara e que almeja um copo de água  para refrescar as vicissitudes da alma e do corpo. 
A palavra morte para alguns é uma sentença final para outros um até breve. Pois o dia de segunda-feira, 04 de janeiro amanheceu modorrento, com um calorão de rachar no Planeta Campo Bom, mas também amanheceu triste com a morte de um filho ilustre, Rogério José Martins que lutou bravamente com a doença que lhe ceifou a seiva da vida. Caiu como os gigantes, tombou de pé meu amigo. A doença, que não é plano de Deus, que fique claro, trouxe dor, momentos de incertezas, mas não tiraram a maior das virtudes do Rogério; a esperança e o sorriso. Ele era do tipo que não tinha tempo ruim. Parceiro de todas as horas, para uma galinhada, um conselho ou até uma critica e não obstante um embate filosófico ou ideológico, sempre regado a um bom café no Central, mas sempre prevalecia a amizade; o Rogério era um democrata, um homem a frente de seu tempo. Vereador, secretário municipal, presidente de partido, empresário, ligado a comunidade e acima de tudo voluntário e solidário! Seu corpo foi velado no Parlamento; na Casa do Povo e por lá acorreram centenas e centenas de pessoas, ricos, pobres, negros, brancos, colorados, gremistas, orientistas, quinzistas, socialistas, trabalhistas ou sociais democratas, por quê? Porque Rogério tinha o dom de agregar e aglutinar pessoas ao seu redor. Ali perto do esquife pensei cá comigo: será que no dia em que este jornalista partir tantas pessoas vão se achegar para a despedida? O nosso amigo partiu mais deixou seu legado de homem de bem, envolvido com a comunidade e um exemplar pai de família, apaixonado pela fiel companheira Marli e pelos filhos, noras e netos os quais classificava de seus tesouros. 
Conheci o Rogério  no período de transição entre S.B Kunz e Caeté e ali em 1982 descobri o homem de bem e capaz de se emocionar com as agruras da vida. Inverno de renguear cusco e ao lado da máquina estava este  futuro escriba e um jovem que era chamado de Seberi em função da cidade  de onde veio; um colono perdido no asfalto que veio em busca de dias melhores no Planeta Campo Bom. O garoto mais jovem que eu estava de chinelos tipo hawaianas e com certeza sentia frio, pois os dedos estavam roxos. Ao lado da máquina ali estava o Rogério que perguntou ao menino de chinelos: “Garoto tu podia me quebrar um galho?” O jovem recém iniciado na empresa retruca: “O que o senhor quer?” Rogério sério retorna: “Que número tu calça?” A resposta foi 39 e novamente Rogério  afirma: “Este meu sapato está apertando meus pés e eu preciso de um chinelo, que tal a gente fazer um troca pelo menos até o final do dia?”. O jovem Seberi aceitou a troca e com isso aqueceu os pés. Rogério saiu de fininho, sem alarde e com habilidade fez caridade sem constranger. O sapato nunca mais foi destrocado pelo chinelo. 
Outra feita quando atuava em uma empresa jornalística A Gazeta na avenida dos Estados, recebemos o convite para participar na casa dos Martins de uma comemoração. Chegamos lá, eu, o Fernando, o Mauri e senão me falha a memória o Márcio Cruz. Já havia algumas pessoas e todos se questionavam: mas é aniversário de quem? Nem mesmo a Marli sabia a motivação da festa. Porém alguns minutos adentra o Rogério sorridente com carne para um churrasco, onde todos animados dialogavam e trocavam ideias, já no final do churrasco, o Rogério traz um bolo com apenas uma vela e todos atônitos se perguntam: Mas quem está de aniversário? E o Rogério abre um grande sorriso e diz: “Convidei vocês aqui pessoas que eu amo para nós comemorarmos a vida. A vida é um grande presente do criador e a gente tem que comemorar”. Um gesto nobre de um verdadeiro ser humano. 
Quando  nos deixa uma figura como o Rogério o mundo fica mais triste e mas pobre. Um momento de rara beleza e encantamento aconteceu quando o Feijão exímio músico e amigo pessoal do Rogério adentrou a Casa do Povo tocando “Amigos para Sempre”. Lentamente na frente do caixão de forma magnifica prestou seu último adeus. As notas da canção que fala de amizade eram tiradas com a maestria do músico, mas lágrima rolavam pela face do ser humano que se despedia do amigo. 
O velório do Rogério se tornou até um momento cultural com irmãos, amigos recitando poesias a beira do caixão e isso só o Rogério seria capaz. 
Partiu o amigo Rogério e que falta fará, para discutir, brincar, sorrir e palavrear e apontar caminhos nestes tempos em que urge a necessidade de timoneiros a apontar o porto seguro. “A ausência dói, mas como diz o poeta:” Eu fico com a pureza das respostas das crianças: É a vida! É bonita e é bonita! Viver e não ter a vergonhe de ser feliz, cantar, a  beleza de ser um eterno aprendiz. 
Descansa em paz guerreiro. – Jair Wingert; jornalista.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

UM NATAL INESQUECÍVEL

A amizade entre o ser humano e os animais é algo muito bonito e interessante. Os animais são presentes do criador e que nos ensinam diariamente lições, sobretudo de fidelidade, desprendimento e valentia em defesa desta amizade. 
Existe um ditado popular bem certo: mais vale um cachorro amigo do que um amigo cachorro. 
Nas noites frias onde a temperatura faz renguear cusco aqui na Província de São Pedro, as rondas sociais das grandes capitais e das cidades do interior perambulam em busca de moradores de rua para levá-los aos albergues onde terão uma cama, alimento e a segurança de um teto. Numas das noites ouvindo o Brasil na Madrugada na Rádio Gaúcha fiquei sabendo por uma matéria que dois fatores são muitas vezes empecilhos para que os moradores de rua não queiram passar a noite nos albergues, o primeiro é que é necessário tomar um banho, ou seja, fazer a higiene pessoal, mas muitos se negam a este expediente e o segundo e mais agravante é que nos albergues animais não podem entrar e aí a maioria dos moradores de rua optam em ficar ao lado dos seus amigos, num exemplo de amizade e lealdade que convida a refletir.  Cada cidade possui seus moradores que são peculiaridades, quem não lembra do Militão em Novo Hamburgo nos anos 70? E em Campo Bom do Eloí Louco do Rio Branco com seu carrinho de mão. O Eloi era uma figura, mas para nós crianças que não sabíamos que o mesmo sofria de distúrbios mentais era um “perigo”. 
Mais perigoso que Eloi só a kombi dos vampiros que tiravam sangue. O tempo passou, crescemos e aos poucos descobrimos que ele era um ser humano igual a nós e que precisava de ajuda e tratamento. Sempre acompanhado de cães pelos quais nutria profundo carinho e respeito.
Verão de 1976, o velho Eloi exímio fazedor de poço cavado, lembra quando não havia a Corsan o jeito era cavar um poço e dali se tirava água para beber, tomar banho, cozinhar, lavar. Naquela época o micróbio mais perigoso que a gente conhecia no Morro das Pulgas era um tal de tatu (não é aquele tatu que você colocava embaixo das classes na escola seu porcalhão e a gurizada pensava que era chiclé Ping Pong), o tatu que eu falo é aquele com casco que faz buracos. Não havia este negócio de poluição do lençol freático. 
Quando não estava em surto Eloi que odiava ser chamado de Cafuncho ou Tomé, fazia poços em Campo Bom especialmente no Rio Branco e Paulista. Pois num sol de rachar a gente retornava do centro e subia a Andradas esbaforido o velho Eloi conduzindo seu inseparável carrinho de mão, dentro do carro estava de carona, a laika uma cadela SRD – Sem Raça Definida, pêlo amarelado, a mesma estava faceira dentro do carrinho. Seguindo o Eloi, quatro filhotes da laika subiam a Andradas correndo atrás do carrinho, aí é que o cotidiano se transforma em inusitado. O velho Eloi de guerra, para o carrinho e com a voz estridente grita: “Laika desce já, onde é que já se viu tu aí de carona e os teus filhinhos tudo a pé... Não tem vergonha na cara não?” A cena jamais me saiu da retina.... 
Assim como o Eloi existem tantos personagens pitorescos como o Pelé que sempre está a espera de alguém que lhe conceda uns trocados. Outro dia ele estava na frente de um edifício aguardando uma pessoa que toda sexta-feira lhe repassa R$ 5,00 e como a mesma estava demorando, veja o comentário do Pelé para mim: “Oh do jornal tu vê já são quase 9 horas e a (......) ainda não desceu. Que coisa eu cheio de compromissos tendo que esperar”. Como diz o Tio Dino: tem que ter concurso. 
Pablo Neruda o maior poeta da America Latina, nasceu no Chile, escreveu que existem cenas que se eternizam e passam por nós e muitas vezes nos falta sensibilidade para observá-las.  
Quem não conheceu o saudoso o Mosquito? Ele contou-me que é filho adotivo e nasceu em Porto Alegre, seu padrasto trabalhava na Linha Férrea e veio para Campo Bom lá pelo final dos anos 50, quando Campo Bom havia se emancipado. A família do Mauro ou Mosquito se fixou às margens da estrada de ferro, ali onde hoje é a Casa do Agricultor na Avenida São Leopoldo, por ali, o padrasto do Mosquito tinha uma casinha de madeira. O Mosquito lembra que trabalhou nas fábricas de calçados nos anos 70 e 80, depois veio à dependência química e com ela as sequelas do uso destas substâncias nocivas a saúde. Esteve internado em vários centros de recuperação. Nos tempos do antigo Bar do Cinema, espaço que volto a dizer não podia ter fechado (deveria ter sido desapropriado em nome da história e da cultura desta terra e transformado em numa Casa de Cultura. Um dia próximo ao Bar do Cinema, Mosquito encontra Charles Kehl, o nosso ilustre amigo Chaleira e logo pede: “Oh seu Chaleira, não tem dois reais aí para tomar um café?”. Solicito como sempre, Chaleira leva a mão na carteira, mas alerta: “Vou te dar os dois pilas Mosquito, mas não vai tomar trago”.... Sorrindo, Mosquito com aquele olhar penetrante responde: “Fica frio Chaleira parei de beber, eu tô com fome, minha barriga tá roncando tanto que até parece que engoli um motoqueiro com moto e tudo”. Meia hora depois Chaleira segue pela Voluntários e vislumbra sabe quem? Quem? Mosquito na fila da Lotérica do Breno Thoen, indignado, Chaleira aborda o Mosquito e pergunta: “Pô Mosquito te dei  dois reais para o café e tu está aí na fila do jogo?” E aí vem a pérola, nosso herói  sorrindo, mas endurecendo sem jamais perder a ternura, ataca: “Bah Chaleira, tu não sabe que a Loto acumulou  e ai eu tô aqui jogando com os teus dois pilas, mas se eu ganhar, não te preocupa que a tua parte vai sair meu”. Outra cena poética  protagonizada pelo Mosquito aconteceu no Natal da Integração de 2002.  Todos na praça que é Largo e este escriba cobrindo o evento para um jornal da região, ali quase 10 mil pessoas se abraçavam emocionadas com as luzes e os fogos e um cantor famoso aqui do Rio Grande do Sul entoava “Noite Feliz”... A canção melodiosa lembrando o nascimento do maior presente de Deus para a humanidade. Aos poucos vou deixando o Largo que é praça ou é o inverso? Não importa. a canção ao fundo, atravesso a Adriano Dias cuidando da máquina do jornal e vejo Mosquito apanhando um cachorro quente, ou melhor o que sobrou de um cachorro quente numa lata de lixo em plena noite de Natal e aí fico observando, lentamente, Mosquito que foi batizado pelo nome de Mauro, senta junto a porta fechada da então Biblioteca embaixo da marquise, abre o pão e retira a salsicha e a seu lado um cãozinho, amigo inseparável, que atende pelo nome de Banzé se lambe e late num festejo. A cena não é observada por ninguém, pois os transeuntes passam e o Mosquito e o cão são como que invisíveis aos olhos. Na verdade todos nós muitas vezes estamos tão absortos que esquecemos de vivenciar o belo. Mosquito diz: “Tai Banzé, feliz natal para ti meu amigo”. Não pude conter a emoção e questionei: “Mosquito me responde uma coisa, por que tu deste a melhor parte do cachorro quente que é a salsicha para o Banzé?” E aí a resposta, meus amigos, fez este escriba chorar: “ Oh adventista para o melhor amigo a melhor parte. O Banzé cuida de mim, é um amigo de verdade”.... Dei um abraço no Mauro e desejei-lhe  feliz natal, não sem antes afagar o Banzé... No palco do Largo ou da Praça, o cantor dizia: “Como é que Papai Noel não se esquece de ninguém”. Natal de 2002, um natal inesquecível! 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A CAMISA DA ESPERANÇA (PAPAI NOEL EXISTE)

Corria o ano de 1975 e nós colonos perdidos no asfalto, vivíamos em Campo Bom o período de ouro das exportações de calçados. Viemos da roça em busca de dias melhores movidos pelo sentimento dos retirantes: a esperança. Em Campo Bom após alguns anos a família Wingert conseguiu adquirir a tão sonhada casa própria no bairro Rio Branco. Neste bucólico bairro eu e meus sobrinhos vivenciamos os melhores anos de nossas vidas. Vivíamos com extremas dificuldades, mas na beira do fogão a lenha a família estava unida, ouvindo ao anoitecer as histórias contadas pela avó e pelos pais. Nossa família sempre teve uma tradição colorada, aliás, os Wingert são colorados e os que não são tem que verificar porque talvez não sejam Wingert ou precisam  fazer terapia. Na década de 70 o Inter tinha um dos melhores times do mundo com Falcão, Figueroa, Manga, Flávio, Lula, Valdomiro e outros expoentes. Lembro que os natais em nossa casa sempre eram marcados pelo amor e união da família. Não fazíamos ceia com peru, mas o almoço de natal com bife, salada de maionese e uma “Coca família”, numa garrafa de litro era um verdadeiro manjar comprada no armazém do seu Moraes. Presentes eram raros em função das dificuldades, mas o natal de 1975 foi inesquecível, pois minha vó perguntou o que gostaríamos de ganhar e ouviu de mim e de meus dois sobrinhos (Laone e Everaldo) que queríamos muito uma bola número 5 e eu afirmei que gostaria muito de ganhar do Papai Noel a camisa número 3, a do Figueroa, o Laone pediu a número 8 do Caçapava e o Everaldo a número 5 do Falcão. Lembro que minha avó disse que era preciso sonhar e que talvez Papai Noel trouxesse tais presentes. Na véspera de natal na casa dos Wingert o ritual era o mesmo, minha mãe retirava do forno de barro os doces de natal e na mesa da cozinha sentávamos para ajudar a pintá-los. Um prato repleto de merengue e um copo cheio de confeitos tipo chumbinhos coloridos. Minha mãe passava o merengue branquinho com uma colher nos doces e nós polvilhávamos os doces com confeitos coloridos. Para nós eram verdadeiras obras de arte tipo os quadros de Picasso ou Portinari salvo é obvio as devidas proporções. A seguir os doces permaneciam na mesa até o amanhecer para secar. Mas naquele natal observei que minha vó não estava participando do ritual de pintar os doces e foi aí que ouvi um barulho vindo de seu quarto, tipo uma máquina de costura trabalhando. Disfarcei e me esgueirando pelo corredor da casa de madeira na Tapajós, aproximei-me do quarto da Vó Guina e olhando por uma fresta da porta, a vislumbrei junto à máquina de costura manual e sob luz de lamparina a costurar uma camisa. Uma camiseta!!! Meu coração acelerou, pois o número era o 3 e a camisa era vermelha. Fiquei ali aguardando astutamente a velha matriarca virar a camiseta e costurar o distintivo do Sport Club Internacional. Naquele instante descobri que Papai Noel existia sim, e não era só um, era vários. Papai Noel era o meu pai, minha mãe, meus irmãos mais velhos, minha vó e minha cunhada, pois aqueles presentes eram fruto do sacrifício de cada um deles. Fui dormir feliz porque o natal de 1975 foi o melhor natal de todos os tempos, principalmente porque estávamos todos juntos. No dia seguinte munidos da bola número 5 e das camisetas do Colorado, eu e meu sobrinhos desafiávamos os meninos gremistas do Morro a um embate no campinho próximo a casa. A camiseta do Figueroa, a monumental número 3 tinha um sentido de natal que na verdade é o sentido de amor, esperança, fé e sacrifício de uma família. Papai Noel existe: é vermelha usa camisa 3 e foi o melhor zagueiro do mundo. * Jair Wingert; jornalista.