quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A GRANDE MENTIRA

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O tema  emergencial do debate  no Brasil é a redução da maioridade penal. Muitas opiniões  estão acirrando o debate.
A maioria da população influenciada pela  grande mídia  que está a serviço das elites conservadoras do Brasil defende a redução e faz uma verdadeira lavagem cerebral  na população sob a chancela do “Plim Plim”. 
Reduzir a maioridade penal não vai resolver o problema da violência. Primeiro: o Estado é o grande responsável pela falência do sistema prisional que  é um deposito de  pessoas; uma faculdade  com pós graduação no crime. Pergunto como vamos colocar adolescentes junto de  marginais perigosos, traficantes, estupradores, ladrões de bancos? Estes jovens  se saírem vivos da cadeia serão recrutados pelo crime organizado.
No Rio Grande do Sul, segundo o jornalista Claudio Britto (Conversas Cruzadas TV Com) em 2015 existe quase cinco mil adultos com prisão decretada que estão soltos porque não existe vaga nos presídios. O que é urgente neste tema é identificar quem deseja  a redução da maioridade penal? A elite conservadora do Brasil precisa de um  bode expiatório, alguém para colocar a culpa e infelizmente escolheu  a parte fraca, os adolescentes.
Uma pergunta é importante ser feita: será que  jovens ricos serão presos? Os  “bad boys” filhos de famílias ricas de Brasilia que queimaram o índio Galdino que dormia num banco de praça estão soltos e ai? . E o estarrecedor é que um deles disse em entrevista que não sabia que era um índio, pensaram ser um mendigo.  É de chorar. 
A lei  é como diz o escritor Gabriel Garcia Marques “é igual a uma serpente, mas que só pica os pés descalços”.  Aos pobres negros, colonos sem terra, sem teto, desempregados, os rigores da  lei, já a classe alta, bem ... Tudo como era antes nos tempos de Abrantes. A redução da maioridade penal é uma ferramenta que será posta em prática, depois vem a pena de morte. Tudo se encaminha para  em breve ter no país  escolas de educação infantil de segurança máxima. Já pensaram mamadeiras como monitoramento eletrônico para os bebês  não escapar? É cômico se não fosse trágico. 
O que ocorre no Brasil é  a incompetência do Estado. O sistema prisional é  falho, caótico e retrogrado. Os presídios precisam ressocializar e não permitir que o detento saia com curso superior do crime.  O sistema prisional deve implantar  trabalho de um turno aos presos, ensino profissionalizante em outro, bem  como, condições humanas de alojamento, médicos, psicólogos, apoio religioso, dentistas, atividades físicas e bibliotecas. Se isso tudo ocorrer e não mudar ai sim poderemos debater a redução da maioridade penal, do contrário tudo não passa de uma farsa. 
O Brasil precisa e deve radicalizar o processo democrático de participação popular. O governo deve ampliar o acesso de jovens as escolas, faculdades através de bolsas aos pobres, ampliar programas de moradia as pessoas de baixa renda, mas sobretudo é urgente (para ontem) investir pesado em educação.
Educação, educação e educação como dizia Leonel Brizola e Dary Ribeiro quando implantaram os CIEPs no Rio Janeiro no anos 80. Os “Brizolões” eram escolas de turno integral nas quais  a criança chegava pela manhã tomava café, assistia aula, lanchava, depois ao meio dia almoçava e a tarde participava de oficinas. A tarde lanche, a tardinha tomavam banho e jantavam. Havia  transporte gratuito para estas crianças e aulas de inglês e francês. Foram construídos 550  CIEPs, porém quando mudou o governo carioca aos poucos os governadores (a serviço de  quem?) foram fechando os CIEPs, transformando em escolas de apenas um turno para que? Para sobrar mais dinheiro para ser desviado para seus bolsos. Hoje dos 550 Brizolões não chega a 20 o número de escolas em turno integral, ou seja, 530 escolas de formar cidadãos  foram fechadas. Isso tudo a serviço de quem? Sociólogos, pedagogos e educadores chegaram a conclusão de que se o sistema educacional  implantado por Brizola e Darcy Ribeiro tivesse continuidade e ampliado, o Rio de Janeiro não estaria enfrentando o caos, onde existe um “estado” paralelo no qual facções criminosas comandam  favelas e morros, levando violência e morte. 
A prevenção à criminalidade esta diretamente associada à existência de políticas sociais básicas e não à repressão, pois não é a severidade da pena que previne a criminalidade, mas sim a certeza de sua aplicação e sua capacidade de inclusão social. A redução da maioridade penal é  semelhante a um homem que possui um tumor em um dos olhos e entra em uma relojoaria e compra um óculos escuro. Reduzir a maioridade penal é atacar o sintoma e não a causa.
O remédio é amargo, mas deve ser tomado e consiste em austeridade fiscal, enxugamento da máquina pública, combate a corrupção e punição aos corruptos, mas é vital uma sobretaxação sobre  as grandes fortunas que hoje sonegam impostos e estão financiando estas ações no Brasil, porque não querem abrir mãos dos anéis, mas se nada de concreto ocorrer e a famigerada redução acontecer, as elites constataram que a violência não diminuirá pelo contrário aumentara e ai ao invés de perder os anéis perderam os dedos e quem sabe as mãos.
Encerro lembrando o sociólogo Betinho (Herbert de Souza) “Se não vejo na criança uma criança é porque alguém a violentou antes. E o que vejo é o que sobrou de tudo que lhe foi tirado”. 
Portanto mais escolas e menos presídios.
Jair Wingert; jornalista - Reg. Prof. MTb/RS - 10.366

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

FAMÍLIA PERDEU TUDO EM INCÊNDIO E AGORA CARECE DA MOBILIZAÇÃO DA COMUNIDADE

Neste local na Avenida Luiz Alberto Fett ao lado da Pensão do Joaquim no Rio Branco será reerguida a residência de Sarico e Vilma. Este sonho só depende de nós.
A obra de Graciliano Ramos Vidas Secas narra as lutas e agruras da família de retirantes nordestinos que buscam escapar da fome, mas a pior de todas as agruras é a da alma. A falta de esperança é um dos grandes males da humanidade.
Em Campo Bom no dia 25 de junho pela madrugada um incêndio destruiu em questão de minutos a residência de uma família de campo-bonenses. O casal Osmar Gaspar da Silveira “Sarico” (61) e Maria Vilma moradores na Avenida Luiz Alberto Fett no bairro Rio Branco (ao lado do Mini Mercado e Pensão Amaral) perderam praticamente tudo no incêndio que provavelmente teve como causa um curto circuito. A casa de madeira já estava em condições precárias segundo Sarico e queimou em poucos minutos. Ele é aposentado e a esposa Vilma é do lar e o grande sonho deste casal de moradores do Rio Branco é poder reconstruir uma casa pequena, mas de alvenaria. Sairam praticamente só com as roupas do corpo e estão morando temporariamente num espaço cedido pelo vizinho e comerciante Joaquim Amaral que não está cobrando aluguel dos amigos, num gesto de solidariedade.
Sarico é uma pessoa bastante conhecida no bairro e agora está tentando adquirir os materiais de construção, porém não tem sido fácil a empreitada. Emocionado Sarico destaca: “A gente ainda está muito abalado com o incêndio que por pouco não se alastrou queimando outras residências dos vizinhos ao lado. Graças a Deus ninguém se feriu, mas por outro lado a gente está triste porque sabe que não é fácil reconstruir a nossa casinha”, destaca Sarico com a voz embargada e ainda conclui: "Eu agradeço aos amigos em especial o Joaquim que nos cedeu um lugar para ficarmos temporariamente sem cobrar aluguel. Não é fácil iniciar do zero novamente até porque somos pobres, mas tenho fé que aos poucos as coisas vão se ajeitar, Deus é bom e sabe todas as coisas", salienta Sarico enxugando as lágrimas. Já a esposa Vilma afirma que não consegue dormir em função do trauma do incêndio. “Acordamos com o fogo destruindo tudo. Ainda hoje me dá uma vontade enorme de chorar, porque não sei como vamos fazer para reerguer nossa casinha”, enfatiza Vilma.
A mobilização e a solidariedade é o caminho para fazer esta família voltar a sorrir. Se cada um contribuir com um pouco, o pouco se torna muito. A mobilização da comunidade pode e vai fazer a diferença para que mais esta história tenha final feliz. Você pode colaborar doando materiais de construção ou até um valor em dinheiro para a mão de obra. Veja abaixo o material necessário para resolver este problema e possibilitar que o Sarico e a Vilma tenham novamente sua casa, agora de alvenaria. Sarico e Vilma perderam quase tudo do pouco que tinham, mas não perderam a esperança e a crença no ser humano e na sua solidariedade.

Final feliz?  Só depende de você!

* 5 mil tijolos de seis furos; * 500 pedras de alicerce; * 30 barras de ferro 5/16; * 30 barras de ferro 4.2;* Uma dúzia de tábuas; * 60 sacos de cimento; * Uma carga de areião; * Uma carga de brita; * Duas portas de madeira; * Uma janela basculante; * três janelas de madeira e * 48 telhas de Brasilit de 6mm. Você poderá ajudar entrando em contato com a família pelos telefones: 51.8065.2467 (Vilma) ou 51.9789.5939 ou conosco através do 9856.9252. 
Não esqueça sua doação vai fazer a diferença e você estará ajudando uma família a voltar a sorrir e ter esperança novamente. Você já fez tudo que podia por seu semelhante? Pense nisso.
Vilma e Sarico perderam praticamente tudo no incêndio de junho passado. Agora nossa solidariedade e mobilização será decisiva para que esta história tenha final feliz.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

CARLINHOS DO BAIANO

Jair Wingert  ao lado do  advogado e empreendedor Carlos Silveira formado pela Feevale.
A canção do Milton Nascimento diz que amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito; dentro do coração. Já o poeta Moacir Franco na canção “Amizade” fala: “Amizade, felicidade, ainda é tempo. Me abrace agora que amanhã pode ser tarde, amor bonito é amizade”.
Há amigos que mesmo a gente não estando sempre juntos são amigos eternos. Amigos na verdade são anjos disfarçados de pessoas que estão aqui por alguma razão. O escritor Saint Exuperry  “Pai do Pequeno Principe” afirmou que a gente se torna eternamente responsável por aquilo que cativamos. Eu dentro da minha vã filosofia vou além:  nossos amigos são os bens mais preciosos que existem. A vida sem os amigos é como o céu sem a mágica presença das estrelas. E quando um amigo vence uma etapa, quebra um paradigma a gente se alegra.
Particularmente estou exultante com a vitória do Carlos Silveira; o Carlinhos do Baiano; amigo do Vitor  Hugo “Torugo”, do Chico Louco, do Strack e de tantos outros nos bons tempos do Rio Branco; quando ainda éramos o Morro das Pulgas.
Conheci o Carlinhos em 1977 quando morou com sua família no estádio do Oriente. O velho Baiano vendia pasteis numa Variant azul clara. E nós nas tardes primaveris intercalávamos momentos de chutes a gol dentro do campo do Oriente sempre de olho no Xóxi, mas também ajudávamos o Carlinhos no cilindro, espichando a massa para os pasteis que abasteciam os armazéns de Campo Bom. Dona Amélia mãe do Carlinhos cuidava do Daniel “Béco” que na época ainda era um bebê.
Amizade pura, futebol nos campinhos do bairro, além de torcer pelo Oriente aos domingos e pelo colorado. Seguíamos sem qualquer medo da vida, Carlinhos no Ferrari “Pre Man” ou Polivalente como queiram e eu no Emilio Vetter, depois no glorioso Ildefonso Pinto. Carlinhos  habilidoso volante da Cebem campeã  da região metropolitana, treinado pelo seu Gildo Pacheco e supervisionado pela dona Juraci Reichert.
Tempos difíceis também, pobreza romântica, mas espere ai pobreza romântica você vai dizer? Sim pois éramos pobres, mas  tínhamos sonhos e o pão de cada dia mesmo sendo pouco jamais faltava na mesa. A família se reunia e havia mais diálogo menos facebook, tablet, whats e televisão. A tecnologia era o fogão a lenha com um bule de café feito no saco, ovo frito (só no girassol), salada de tomate, arroz, feijão, aipim... Um banquete... Domingo? Bah ai sim, principalmente no natal e ano novo, salada de maionese, galeto e costela assada e uma Pepsi família (garrafa de vidro) comprada no Bar do seu Moraes e a sobremesa, uma lata de doce de Pêssego (eu tomava até o caldinho).
Hoje contando isso talvez os mais jovens estarão pensando: o tio pirou, comeu bolinha de sinamão (sinamomo). Nós éramos felizes e sabíamos!
Hoje a pobreza é outra, porque um jovem senão tem um tênis da marca tal, se sente pobre. Não tendo um telefone de última geração se sente pobre e não  tendo uma roupa de marca famosa também é pobre. Na pastelaria do Baiano aprendi as primeiras lições de solidariedade e socialismo, pois no final da tarde muitas vezes nós entre vários amigos  dividíamos alguns pasteis ofertados pela dona Amelia. Retornávamos para casa alimentados e felizes. Aqueles pasteis  de carne tinham um tempero especial: esperança.
Os anos se passaram e a família Silveira seguiu seu caminho, o Baiano abriu uma Borracharia na São José em Novo  Hamburgo, depois retornou a Campo Bom e na  Avenida dos Estados esquina com Adriano Dias, onde funciona um posto de combustíveis, ali o velho Baiano de guerra iniciou uma borracharia. Os filhos cresceram e o espirito empreendedor do Baiano e a inovação e a ousadia dos guris, Carlinhos e Daniel transformou a borracharia num centro de referência na cidade com prédio próprio.
A Baiano Pneus é mais que uma loja. A empresa muito além de oferecer serviços prima pela excelência de seus serviços com preceitos de qualidade total e satisfação dos clientes que se tornam impreterivelmente em amigos.
Pois no ultimo sábado (01.08) tomado pela emoção  tive a alegria de participar de uma  conquista do meu amigo, meu irmão Carlinhos do Baiano, agora o advogado Carlos Silveira. Formado pela Feevale em Direito, o Dr. Carlos é um exemplo de que sonhar é preciso. O velho  Baiano plantou uma semente que germinou. Festa bonita, amigos celebrando a vitória. Família reunida, emoção da esposa e da filha que leu uma terna mensagem que levou o pai (Carlinhos) às lágrimas. Mas as lágrimas não tiraram dos olhos do Carlinhos a imagem estampada no olhar perdido em um momento ao recordar dos pais que não mais estão presentes, mas foram decisivos na construção do caráter desta família de empreendedores.
Para mim foi uma vitória compartilhada, sim, porque quando um amigo vence, todos nós vencemos.
Carlinhos que Deus abençoe tua nova caminhada e continues assim sonhador, ético, sério, com o espírito de  empreendedor e sobretudo sonhador.
Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
Um beijo no teu coração meu irmão.
Jair Wingert; jornalista.
Cebem de Campo Bom - 1977 ( escola em turno oposto) do  Rio Branco. Equipe campeã da Grande Porto Alegre - Em pé da esquerda para a direita – Paulo Vargas, Paulinho Apollo, Jorge Moreira, Laone, Jair Wingert, Sidnei da Ajar, Carlinhos do Baiano, Paulinho Arteiro, Elvio André, Everaldo, Carlos Moreira e Altemir Pereira.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

EDUCAR É ABRIR JANELAS

Jorge Trevisol um dos melhores palestrantes que já esteve em Campo Bom.
A educação é a ferramenta que vai transformar o Brasil e torná-lo aquela nação preconizada por Tiradentes; aquele herói enlouquecido de esperança. È verdade que desde 2002 para os dias atuais o país avançou muito, sobretudo possibilitando acesso aos filhos dos trabalhadores a faculdades e universidades. O nosso Leonel de Moura Brizola um apaixonado pela educação e defensor de que projetos educacionais são ferramentas de inclusão e que contribuirão para o surgimento do novo homem; um ser formador de opinião e não repetidor informação; um pensador na essência da palavra “Se penso logo existo”. Brizola e Darcy Ribeiro quando implantaram os CIEPs no Rio Janeiro nos anos 80, os “Brizolões” eram escolas de turno integral nas quais  a criança chegava pela manhã tomava café, assistia aula, lanchava, depois ao meio dia almoçava e a tarde participava de oficinas em turno oposto. A tarde lanche, à tardinha tomavam banho e jantavam. Voltavam para casa com o corpo e a alma alimentado. Havia  transporte gratuito para estas crianças e aulas de inglês e francês. Foram construídos 550  CIEPs, porém quando mudou o governo carioca aos poucos os governadores (a serviço de  quem?) foram fechando os CIEPs, transformando em escolas de apenas um turno. Para que? Para sobrar mais dinheiro para ser desviado para seus bolsos. Hoje dos 550 Brizolões não chega a 20 o número de escolas em turno integral, ou seja, 530 escolas de formar cidadãos  foram fechadas. Isso tudo a serviço de quem? Sociólogos, pedagogos e educadores chegaram à conclusão de que se o sistema educacional  implantado por Brizola e Darcy Ribeiro tivesse continuidade e ampliação, o Rio de Janeiro não estaria enfrentando o caos, onde existe um “estado” paralelo no qual facções criminosas comandam  favelas e morros, levando violência e morte.  A prevenção à criminalidade esta diretamente associada à existência de políticas sociais básicas e não à repressão, pois não é a severidade da pena que previne a criminalidade, mas sim a certeza de sua aplicação e sua capacidade de inclusão social. Independente da ideologia ou gres partidária, até porque acredito que isso apenas separa, ou seja, não une, desagrega, fico estupefato com o projeto educacional desenvolvido em nossa cidade. Campo Bom possui desde 2008 um projeto de educação libertário e que é referencia no Brasil. O projeto sob o comando do prefeito Faisal Karam sob a chancela da secretária de Educação, Eliane dos Reis e sua equipe é reconhecido internacionalmente com ênfase na inclusão. Na semana passada, (31.07) no auditório Marlise Sauressig no CEI tive a alegria de participar do Seminário envolvendo educadores e profissionais da educação infantil. Um momento de rara beleza e encantamento. A começar pelo grupo musical da Escola Presidente Vargas da Operária coordenado pelo professor Rondinelli que com talento e maestria conduz estas crianças. Aliás, este grupo é uma oficina de cidadania, uma verdadeira “Padaria d'alma”. Os alunos participam deste grupo em turno oposto ao da escola. Olha o Brizola ai gente! Escola em turno integral tira as criança e adolescente das ruas e os transforma em cidadãos de bem. A emoção de ver aquela garotada tocando instrumentos e levando a magia da musica que transforma a alma foi algo que transcendeu minha finita compreensão. Nossa,  filhos de sapateiros tocando instrumento que maravilha! O que é aquele garoto solando “Dona” do Roupa Nova” com sax? Um momento lúdico e que nos deixou emocionados, porque educar é preciso. Já o palestrante dispensa comentários. O teólogo, compositor, filosofo e terapeuta Jorge Trevisol é uma autoridade. Sua palestra é algo magnifico que leva a pensar, a “não ficar distraído”. Fala de anjos, de amigos e de tantas reflexões “Como Zaqueu”.  Trevisol sentenciou que  o ser humano mais potente não é aquele que conquista coisas materiais mas, aquele que vai, no passar dos dias da vida dele se descobrindo nas experiências que vai fazendo. Isso na (área da)educação é fundamental pois a educação poderia ser chamada 'a arte de despertar a alma que há em cada um.  A divisão maior da sociedade não está entre pobres e ricos, mas sim entre os distraídos e os que são atentos aos sinais. Os que estão mais atentos conferem sentido as coisas que acontecem ao seu mundo, se mantém alertas, enquanto os distraídos as vezes simplesmente veem a vida passar, entregam-se demais ao acaso.”, disse, pregando que a auto avaliação é um exercício indispensável para quem busca conhecer a si mesmo. Andando pelo palco com seu sotaque no melhor estilo descendente de italianos, o psicoterapeuta orientou o público a observar melhor as pessoas de seu convívio mais próximo. “Quer saber quem você é? observe quem é que vive ao seu lado, quem está sempre com você; analise que livros você lê, que filmes você assiste; isso revela muito sobre sua alma.”  Trevisol enfatizou a importância de monitorarmos nossos pensamentos para que possamos viver com equilíbrio. Em síntese, explicou que atraímos aquilo que pensamos. “Pessoas tristes atraem pessoas tristes e duas pessoas tristes às vezes dão muito certo, até que um deixe de ser triste. Isso porque um triste não suporta a felicidade do outro, a felicidade do outro machuca”.  No final da palestra saímos com a sensação que se quiséssemos voaríamos. Mais leves, sem cargas, mais perdoadores, cheios de esperança e com a certeza de que é possível construir um novo homem a partir do maior de todos os dons: o amor. Também conclui que cada centavo aplicado em educação pelos gestores públicos retorna sempre em forma de cidadania plena. Mais investimentos hoje em escolas e seres humanos serão menos presídios amanhã. O menino e a menina que hoje toca um sax ou flauta doce no turno oposto, amanhã não vai “ tocar um cachimbo de crack” e se tiver que fumar cachimbo será o da paz.  Educar é abrir janelas e construir estradas nos átrios do  coração! Não sei se disse, mas tentei.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

COMO UM DIA DE DOMINGO

Sempre sonhei com domingos alegres, repletos de sol e família reunida para o churrasco. Bate papo descontraído sobre o gre-nal, sobre o gol anulado e a flauta comendo solta  debates acalorados sobre política.
Mas a vida é semelhante a uma peça de teatro onde te dão um papel sem perguntar se você quer interpretar. Jogam-te no palco e uma voz então grita: “Em cena”.
Os domingos são meus piores dias, pois invariavelmente estou só. Meus filhos seguiram seus caminhos e como um velho pássaro que permaneceu no ninho; sozinho.
Nestes dias sinto uma saudade enorme de minha esposa que se foi já faz muito tempo. Ela era a grande referência do lar. Hoje estou completamente só. Não tenho problemas financeiros, passei muitas privações para garantir aos meus filhos um futuro melhor que o meu. Vou esquentar o jantar de ontem, pois este será o meu almoço, tendo como sobremesa um mousse de limão solidão com creme de amargura.
Este é um texto fictício, mas que demonstra o dilema enfrentado pela sociedade moderna: a solidão. Nem sempre o poder aquisitivo, as viagens, presentes, casa luxuosa, faculdade é sinônimo de felicidade. Existe muito pobre morando em mansões e muitos ricos morando em favelas.
A sociedade moderna vem criando “seres humanos” doentes. Mentes aceleradas que não conseguem se desconectar dos meios de comunicação. Já parou para observar que a sua volta as pessoas estão com seus celulares a posto, enviando mensagens e fotos, mas esquecem de conversar com quem está próximo?
Tenho medo que o ser humano em função do whats e outras bostas desaprenda algo inerente à raça humana: falar! Numa mesa de almoço estava com mais cinco amigos e um destes estava junto só de corpo presente, pois ficava o tempo inteiro conectado ao telefone. Aproveitei e enviei uma mensagem para ele perguntando se poderíamos conversar. Atônito me olhou e disse: “Tu não muda sempre de brincadeira”, mas captou a mensagem, pois desligou o celular e passou a conversar.
Mas a pior das doenças do século XXI é a solidão que dilacera o ser humano. Nos países ricos da Europa o índice de suicídio aumenta assustadoramente. Estes números não são enfatizados pela mídia para não aumentar estes números. O que falta a estas pessoas? Dinheiro? Carro? Lazer? Segurança? Não, o que falta é esperança. Ah se a tal esperança fosse encontrada em uma farmácia de esquina, poderia ser original ou genérica, não importa o preço seria o medicamento mais vendido.
A sociedade capitalista é a responsável pelos distúrbios sociais, pois forma seres consumistas, individualistas e que hoje adoeceram em função desta competição tresloucada. O mundo é assim competitivo ao extremo. Querer ser um vencedor é a tônica, mas espere um pouco, para haver um vencedor tem existir um perdedor, certo?
O mundo carece de uma retomada de valores a começar pela simplicidade.
O amor, a família e a espiritualidade são o tripé de uma revolução que pode devolver ao ser humano a esperança. Somos da geração que não sabe o que é ler um livro. Que não sabe o que é o calor de um abraço. Estamos vivendo relações virtuais. Somos da geração dos quartos escuros e das telas de computador. Não conhecemos mais o sol e não andamos de pés descalços. Mantemos contatos com gente de Tóquio, Roma, Cingapura, Sumatra, Nova Iorque ou Nova Deli, mas não conhecemos quem mora em nossa casa. Somos filhos da rede (de fazer loucos). Somos filhos da geração Coca-Cola que avançou para o Skype, Facebook. E-mail, whats, mas que dormimos solitários e agendamos consultas caríssimas com o terapeuta mais famoso do Vale.
Pagamos R$ 300,00 reais para alguém nos ouvir e para dormir bem vai ai um Frisium 10 mg? Ou o fenobarbital para te manter tranquilo e conectado com a rede?
Jair Wingert; Jornalista.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

DUAS LENDAS DO FUTEBOL

Manguita debaixo dos paus era mágico. No Inter foi o maior de todos os goleiros. Jogava finais com dedos quebrados e o bicho garantido na noite anterior.
A posição de goleiro é algo muito importante, pois debaixo dos paus estes homens que no passado vestiam preto viviam a glória e a maldição em questão de noventa minutos. Amados, odiados, aplaudidos, vaiados atuam numa posição tão ingrata que nem grama nasce no local onde  jogam. “Todo goleiro é louco ou é ...” bem a última parte não vou escrever para evitar constrangimento ao autor da frase que me afirmou que ainda não definiu bem qual é sua opção se a primeira, a segunda ou as duas. 
Sem nostalgia e pieguices confesso que fui testemunha ocular de um período mágico do futebol. Anos 70 e 80 gerações de ouro. Quem vai esquecer  da seleção de Telê Santana em 1982, a melhor de todos os tempos na minha opinião, mas não ganhou nada. Desculpem-me os incautos, e amantes dos brucutus, mas no futebol a arte conta e muito.
Perdoem-me os pernas de pau, mas ser craque é fundamental. Um meio campo com Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates e um ataque com Serginho e Éder é algo magnifico. Serginho não era uma Brastemp, Reinaldo era dez vezes melhor, mas vivia de contusões em contusões. A defesa com Leandro na lateral direita, Junior na esquerda e na zaga Oscar e Luizinho. No gol Waldir Peres que não era dos melhores, ou seja, era um ponto frágil. Carlos da Ponte Preta e Paulo Sérgio do Botafogo eram melhores.
Quer como boleiro, como jornalista esportivo ou torcedor tive o privilégio de ver muitos grandes goleiros atuando. Não vi o Raul Blos no 15, mas disseram que embaixo dos paus se agigantava e fazia chover em plena tarde ensolarada. Os mais antigos afirmam que Lev Yashin; russo nascido em  Moscou em 22 de outubro de 1929 era o maior de todos. Na América do Sul ficou conhecido como “Aranha Negra” na Europa o “Pantera Negra” devido seu uniforme todo preto. Foi o primeiro goleiro a ganhar uma Bola de Ouro na Europa em 1963. Aposentou-se em 1971 e  deixou a vida em  20 de março de 1990 em Moscou vitimado por um câncer no estômago. Yashin foi o maior de todos, mas não o vi jogar. Mas vi Benites fechar o gol do Inter. Tive a alegria de ver Taffarel jogar e por aqui vi o Decão no 15 e Cairú, o Renê do 15, do Cairú, o Jorge Baleia do Guarani, do Oriente e do Gandense e o super Zé Carlos da FCC e do Oriente. Mas estes eram humanos, agora me reporto a dois que não eram deste planeta. O primeiro  era um pernambucano  que chegou no Internacional em 1974 sob a desconfiança da torcida e da exigente crônica gaúcha. Hailton Correa de Arruda; o Manguita foi o maior goleiro brasileiro de todos os tempos. Jogou no Sport do Recife, Botafogo de Garrincha, fez parte do insucesso da Copa da Inglaterra em 66 e depois foi para o Nacional do Uruguai onde  se tornou uma lenda, vencendo a Libertadores e o Mundial de clubes. O Inter que montou um dos melhores times do mundo trouxe Manguita com 38 anos, mas alguns diziam que já tinha mais de 40 anos.  Apaixonado por carteado, Manga jogava o bicho do grenal de domingo na concentração com os colegas. Jogava com os dedos quebrados e costumava dizer  “Mim vai todo arrebentado”, numa mistura de espanhol com português. Meus olhos  vislumbraram aos 11 anos de idade na social do Beira Rio em 14 de dezembro de 1975, Manguita fazer milagres como pegar um escanteio de Nelinho só com uma mão. Nelinho exímio cobrador bateu um falta na goleira do Gigantinho na segunda etapa, a bola veio forte e, Manga já havia se atirado para o lado esquerdo, só que a bola fez uma curva novamente e mudou de direção; Manguita em pleno vôo mudou o rumo e retornou em pleno ar, tocando com a mão direita, evitando o gol. Nós nos olhamos na social e nos beliscávamos, pois presenciamos uma das maiores defesas do futebol. Inclusive você que tem menos de 30 anos, vá ao Youtube e acesse final Inter e Cruzeiro 1975 e confira o que estou escrevendo. Manga jogou por vários clubes no Brasil inclusive no tradicional adversário do Internacional, mas encerrou a carreira no Equador. Manga tinha uma das faces mais feias do futebol brasileiro. Para irritá-lo, seus companheiros contavam a seguinte história: disseram que certa vez, em uma visita a uma boate do exterior quando o Botafogo excursionava, Manga conseguiu a companhia de uma esplendorosa mulher. Contudo, antes que deixasse o local com sua acompanhante, seus companheiros o alertaram de que ela não era mulher de verdade, mas sim um homem vestido de mulher (transexual). Manga não se alterou e respondeu: "Não faz mal, ela pensa que eu sou o Jairzinho." Em 1979, ele se aproveitou dessa fama e emprestou sua imagem ao anúncio de um rádio da Philco, onde se lia: "Dura tanto quanto o Manga e é muito mais bonito.”
Em 27 de novembro de 1965 em um amistoso pela Seleção Brasileira, em jogo realizado no Estádio Maracanã contra a União Soviética; cobrou um tiro de meta e voltou para o seu gol sossegadamente, dando as costas para o campo, a bola bateu na cabeça de um jogador adversário que estava agachado, e entrou no gol de Manga fazendo o gol, o jogo terminou empatado em 2 a 2. Em 2010, o Inter trouxe Manga  para Porto Alegre onde atuava como embaixador do colorado, viajando  pelo interior e pelo Brasil nas visitas do Consulado. Em 2012, Manguita  com saudades dos familiares voltou a Guaquil no Equador onde vive.

“Este transformava o inusitado em cotidiano e isso é arte”.
As mãos do velho Manga são provas vivas de quem fez da profissão de goleiro algo extraordinário.
 O segundo  grande goleiro ainda tem muito gás. Também vi Bilú jogar no grande time do 15 de Novembro, “Os professores de futebol”. Debaixo dos paus era  mágico. De média estatura poderia ser considerado baixo, mas voava como um sabiá e possuía uma das melhores reposições de bola com a mão que já vi. Suas reposições muitas vezes ao habilidoso Luzinho na ponta esquerda decretavam contra-ataques mortais. Exímio defensor de pênaltis, Bilú treinava muito. Nos tempos em que o 15 era amador, as empresas de calçados liberavam os jogadores do 15 para treinar as terças e quintas-feiras das 11 da manhã até as 12h e 30min, depois o grupo almoçava e retornava para suas fábricas, resultado, o 15 vencia campeonatos e mais campeonatos. Na segunda etapa as equipes adversárias babavam na gravata. Alguns treinos eram à tardinha, mas sempre após os treinos, Bilú recrutava alguns atletas e permanecia treinando chutes a gol. Sua fama se tornou tão grande que ao falar em goleiro o sinônimo era Bilú.

Bilú defende milagrosamente um chute do lateral Eurico na partida em Campo Bom contra a seleção de Luciano do Vale.
No veterano do 15 de Novembro em 1986 a seleção de másters do Luciano do Vale (TV Bandeirantes – canal 10) não havia empatado nem perdido para nenhuma das equipes do Brasil e numa tarde bucólica, no então estádios dos Eucaliptos, hoje Sady Arnildo Schmidt, os veteranos do 15, com Ismar, Celso, Prego, Naldo, Schuetz, Luia e Cia encararam a seleção de Rivelino, Clodoaldo, Cafuringa, Gil, Lela, Eurico, Ado e foi o próprio 15 quem abriu o placar com um golaço do atacante Prego. A seleção conseguiu o empate, mas o nome da partida foi Bilú que fechou o gol com defesas monumentais, tanto que o técnico Luciano do Vale convocou o gaúcho campo-bonense para o selecionado. Bilú defendeu a seleção brasileira de másters em três amistoso – São Paulo e Minas Gerais e depois voltou para casa com o dever cumprido. Hoje ainda jogando com os amigos quem o vê  atuando na sua empresa que comercializa gás de cozinha, carregando os botijões pelo centro da cidade, sorrindo e dialogando com os amigos do Café do Luciano Taschetto, talvez os mais novos desconheçam, mas este homem foi um lenda. Bilú foi o maior goleiro que Campo Bom já produziu até o momento.
Manga e Bilú me desculpem os mais novos, mas este escriba teve o privilégio, a grata satisfação de vê-los não jogar, porque craque não joga... Se apresenta.
Jair Wingert – jornalista – Reg. Prof. MTb/RS. 10.366.
Na histórica excursão do veterano do 15 para a Europa, Bilú foi um dos destaques. Na foto os campo-bonenses pousam junto com a equipe da Adidas na Alemanha. Bilú é o quinto da esquerda para direita no meio de dois alemães.

terça-feira, 7 de julho de 2015

O CLÁSSICO DOS CLÁSSICOS - MORUNGAVA X GLORINHA

A educação é chave para transformar o meio em que vivemos. O novo homem só surgirá com investimentos pesados em educação. Também creio que o esporte é uma forte ferramenta de inclusão. Você já parou para pensar, quantos campinhos de futebol existem no seu bairro? No Rio Branco anos 70 e 80 havia no mínimo cinco campinhos e todos sempre estavam lotados. O menino que hoje corre atrás de uma bola, amanhã não vai correr da Policia com um três oitão na cintura. No meu tempo craque era quem jogava bem futebol e só. Tem coisas que se eu contar ninguém acredita. Um dos grandes clássicos da região que integra a Grande Morungava, era justamente Morungava e Glorinha. O torneio chegou aos finalmente e a grande final envolvia dois adversários ferrenhos. Não raro os encontros do esporte bretão, ou seja, os prélios entre Morungava e Glorinha terminava em brigas históricas que varavam a noite (prélio, esporte bretão e varavam, o que é a cultura???) Facão, tiros, pedradas, taquaradas eram uma constante. Uma vez numa decisão a briga foi tão grande com tanto tiro que furou a taipa do açude dos Schreiber e deu enchente no Morungava. O árbitro desta partida foi o lendário... Arcedino Vieira Nunes; o tio Dino. Ele apitou a partida final com dois revólveres na cintura e uma caixa de balas nos bolsos. Cada falta apitada ou cartão dado, tio Dino dava um tiro para cima. Encerrada a partida, o velho Dino de tanto tiro que deu inchou os dedos indicadores que não conseguiu tirar as armas das mãos. Somente na segunda-feira ao meio quando os dedos desincharam é que conseguiu tirar os revólveres das mãos. Contando ninguém acredita. Três anos depois outra final. O primeiro encontro aconteceu no campo do Glorinha; chamado de Maracanã. O clássico terminou empatado em 4 a 4 com o Glorinha marcando o gol de empate aos 54 minutos do segundo tempo, lembrando um jogo entre um time da capital e o Caxias. O interessante é que o árbitro era indicado pelo dono da casa, ou seja, em Morungava a arbitragem estaria a cargo do trio – Arcedino “tio Dino”, e como auxiliares – Heitor e Ismael. A semana inteira o Morungava se preparou. Os jogadores até exercícios fizeram, correndo ao redor do campo. A direção liberou verba para comprar em Porto Alegre na Ughini uma bola nova de couro. Coisa linda, um gomo branco e outro preto. Domingo pela manhã mês de julho, cerração baixa, gramado molhado e um frio enorme, mas nós estávamos lá ajudando a marcar o campo com cal. Os vestiários e a copa também foram caiados. Rede nova, goleiras novas com eucaliptos cortados na sexta-feira. Atrás da copa a equipe dos foguetes traçava um plano para soltar três mil tiros quando o Morungava entrasse em campo. Na copa tudo preparado, pasteis, ovo cortido, biju, rapadura e novidade um negócio chamado chiclé Ping Pong que vinha com as figurinhas do campeonato brasileiro de 1975. As bebidas eram sódinha da Cassel, Água da Pedra de Rolante e as cervejas Serramalte e Polar. A cerração levantou e o sol rachou. Para preservar o gramado os jogos do veterano pela manhã e do segundo quadro foram cancelados. A equipe de Glorinha veio em duas Kombi e a torcida chegou soltando foguetes em seis caminhões clima ficou tenso lembrando o clássico Boca Juniors e River Plate salvo é obvio as devidas proporções. Dentro do ritual do futebol, as camisas do Morungava foram benzidas pela dona Lilóca; poderosa nas preces. O técnico do Morungava era o Duarte; delegado em Porto Alegre que treinava a equipe e atuava como volante. O grande ídolo do Morungava era o atacante Sula; goleador da competição com 17 gols e que já atuara nos juvenis do Internacional e como profissional do São José de Porto Alegre, treinado pelo então iniciante Ênio Andrade. Sula chutava com os dois pés, cabeceava bem (sabia fazer gol) e tinha um drible nojento. Era o ídolo da torcida ao lado do meia Alceu e do zagueiro Loth. A equipe do Morungava concentrou no Hotel do Antônio Pohren que todos chamavam de Antônio Porão. O hotel e restaurante ficava na beira da estrada que liga Taquara a Porto Alegre, a RS 020 bem na entrada para o centro de Morungava. Nesta estrada nos anos 60 havia as corridas de carros (baratas), onde os Morungavense ficavam no barranco esperando passar a barata do Catarina Andreatta, do Rosito ou do José Asmuz. O local era local parada obrigatória a quem se deslocava para praia. Não havia a Free Way e Morungava era a rota certa dos veranistas que no restaurante do Antônio Porão saboreavam o almoço caseiro, ou o café com cuca, linguiça do Alebrandt, ovos estrelado com pão caseiro quentinho feito pela dona Verena. Havia no campo no mínimo três mil pessoas, os parapeitos foram logo ocupados. No vestiário do Morungava, Duarte pedia calma e marcação sob pressão. O massagista Lealdino dava um gole de um produto que ninguém sabia ao certo o que era, mas esquentava até as orelhas dos atletas. Uns diziam que a poção mágica do massagista era composta por dez comprimidos de “Reativan”, um tubo de cebion 2 gramas e muita água, mas o velho massagista nunca revelou a fórmula mágica. O Morungava entrou em campo para o aquecimento e ainda hoje lembro o cheiro do óleo verde, produto usado para esquentar a musculatura e muito utilizado pelos jogadores inclusive profissionais. O óleo verde era fabricado pelo Laboratório Catarinense. Aquecimento feito, o Morungava voltou ao vestiário e logo em seguida entra em campo sob uma chuva de papel picado e três mil tiros de foguetes. A “bombonera” era ali meu povo! O jogo apitado pelo tio Dino iniciou e logo o Glorinha chutou uma bola no travessão. O Morungava não se encontrava em campo, errava passes. A bola não chegava até o centroavante Sula que estava como um leão a espera de uma bola, uma única bola. Sula era do tipo dos atacantes que agem como aqueles cachorros que ficam ali no portão deitados dormindo e ai tu entra, pensando “esse guaipeca” só dorme, mas quando tu estás a dois passos da porta, sente uma mordida e uma dor lancinante no calcanhar, olhando para trás e eis que o guaipeca está grudado no teu pé. Assim são os atacantes matadores que se fazem de morto para comer o coveiro. Assim era Flávio Bicudo, Dário “Dadá Maravilha”, Romário, Geraldão, Fernandão, Nilmar, Baltazar, Andrè Catimba e o Sula. O Glorinha abriu o placar numa falha da zaga, fez 2, 3, 4, 5. O primeiro tempo terminou 6 a 0 para o Glorinha. Dizem que no vestiário como fez um presidente de um clube da capital anos depois abriram um garrafão de vinho para comemorar. A torcida do Morungava não acreditava no que estava vendo. Alguns torcedores mais incrédulos disfarçaram e entraram num canavial e foram embora. Os torcedores mais supersticiosos afirmavam que o Glorinha havia encomendado uma mandinga para ganhar o clássico e amarraram os jogadores do Morungava. Se isso funcionasse o campeonato baiano terminava empatado. Segundo tempo inicia e a catástrofe avança num estilo de épico grego. O Glorinha faz 7, 8, 9 e aos 36 minutos faz 10 a zero. Aos 38 minutos pênalti contra o Morungava, a cobrança com perfeição decreta 11 a zero, vexame pior só 7 a 1 contra a Alemanha anos depois sob a chancela do prepotente “Felipão Scolari”. A torcida do Glorinha comemorava e apenas uns 150 torcedores do Morungava aguardavam o término da partida presenciaram algo inacreditável. Aos 42 minutos, o lateral Orlando (irmão da Iolanda Margarida) pegou a bola tabelou com o meia Alceu que alçou a chinóca. Na entrada da área na goleira da estrada, Sula mata no peito e de voleio acerta uma bomba, a bola bate na junção entre a trave e o poste, na forquilha, ali onde a coruja dorme, porém não entra. A goleira fora pregada as traves e para reforçar foi colocado um arame que se soltou ficando um fio de no máximo dez centímetros. Pois não é que a bola ficou pendurada neste fio e com a força do chute ficou balançando, para dentro de para fora do gol e a cada vez que ultrapassava a linha tio Dino atento apitava gol. Quando chegou a 12 gols a bola esvaziou em função do furo com o arame. A partida terminou em confusão, mas o Morungava comemorou mais um título. O Glorinha tentou protestar, mas o ditado é certo troféu no armário ninguém mais tira. Contando ninguém acredita, parece mentira, mas não é. – 100% Morungava – Tem que ter concurso. Jair Wingert; jornalista.